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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Réquiem à Maria Claudia



Segunda-feira, dia 21 de março do presente ano, estávamos, minha mulher e eu, nos preparando para irmos a Salvador – adiantava eu minha ida semanal, quando compareço às reuniões do Conselho Estadual de Cultura –, por ter um exame médico, quando o telefone tocou. Era Juscy, minha assistente, retransmitindo a notícia, infausta notícia, de que Maria Cláudia tinha morrido.
Era uma informação confusa, falava de suicídio, o que, além do choque, mais nos surpreendeu, pois por nossas observações pessoais, leigas, é verdade, Maria Cláudia não tinha o perfil de suicida. Talentosa. Aguerrida. Militante. Tudo isso ela era. Tida por alguns até como bastante liberal em sua vida privada, coisa que só a ela dizia respeito, mas algumas pessoas comentavam e, na surdina, condenavam-na. Por esse ângulo é possível compará-la a poetisa argentina Alfonsina Storni, que se suicidou no mar. Mas nunca imaginei Maria Cláudia como suicida.
Partindo da hipótese do suicídio, lembrei-me de uma canção, melhor, do verso de uma canção, que avisava: “Dizem que essas Marias não tem entrada no céu”. Mesmo não sendo religioso, descrente, pois, dessas utopias, pensei o que São Pedro não estaria perdendo com a possível ausência de Maria Cláudia, militante aguerrida, talentosa, exigindo reformas naquele reino, mas também esbanjando seu incontestável talento, recitando um dos seus poemas. Não. Recitando os poemas de Otávio Mota, talvez “Maria Preá” ou o último que a vi – boa parte de Valença também a viu – “Andada”, quando ela – sempre esbanjando talento –, no nosso Centro de Cultura, imprimiu toda a sua emoção para entoar os versos finais: “Peixe no prato, farinha na cuia”.
Pois era aquela imagem que me vinha à mente a todo instante em que pensava em Maria Cláudia. Ela enrolada a um simulacro da Bandeira Nacional, gritando, frente ao então secretário de Cultura do Estado, Márcio Meireles; frente ao presidente da Fundação Pedro Calmon, Ubiratan Castro; frente a um Centro de Cultura extasiado: “Peixe no prato, farinha na cuia”, o mote que toda criança baiana do meu tempo entoou, e que Otávio Mota usou para fechar com chave de ouro – como se diz – seu belo poema.
Logo depois – ainda emocionado com a notícia – me lembrei de outro belíssimo verso(*), este em espanhol – por ter vivido muitos anos na parte do nosso continente que fala esse idioma –, que, em uma tradução apressada, diz: “Sabe Deus que angústias te acompanhou e que dores antigas calou tua voz”, a qual, mesmo não sendo crente, não tenho pejo de citar, porque se configurada a hipótese de suicídio, só posso admitir que uma dose muito grande de dor – a julgar pela vida de sofrimento que conheceu, desde a mais terna infância – calou sua voz e ceifou sua vida.
Comovia-me, ademais, a última mensagem que ela deixou escrita em seu orkut: “Eu sou, eu sou, eu sou amor da cabeça aos pés.”
Vejamos, então, partindo dos dados comuns, quem foi essa artista jovem e talentosa que, possuía tanto amor armazenado em um coração desesperado.
Maria Cláudia, jovem e talentosa atriz de Valença, cujo nome completo era Maria Cláudia Rodrigues, nasceu em Feira de Santana, Bahia. Aos 20 dias de nascida foi adotada pelo casal Perolina Maria Rodrigues e Maximino Gonzales Vidal, vindo morar em Valença – Bahia. Entre 2005 e 2007, trabalhou como repórter no Jornal Valença Agora. É também atriz e participou do Grupo OPECADO, quando da montagem do espetáculo Teatro Nu, escrito por Otávio Mota e adaptado por Adriano Pereira (vencedor do Festival de Teatro do Baixo Sul no ano de 2005). Em 2010, no mês de dezembro, teve algumas de suas poesias publicadas em um livro, a seleta “Novos Valencianos”, uma iniciativa da Fundação Cultural Euzedir e Araken Vaz Galvão – FUNCEA – e da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes – AVELA –, que contou também com o apoio de algumas entidades e empresas locais e até de cidadãos que, em nível pessoal, colaborou com a iniciativa. A maioria dos poemas constantes naquele livro fora escrito e apresentado, de improviso, durante as edições da Ocupação Cultural, quefazer multicultural de um grupo de jovens de Valença, que se reúnem quinzenalmente, sob a liderança de Adriano Pereira, no Centro de Cultura Olívia Barradas, com apresentações de dança, teatro, números circenses, música, recitais de poesia e de textos, sejam estes de autores locais, sejam de nomes consagrados da literatura nacional.
Maria Claudia (de vinte oito anos) foi encontrada agonizante, na casa do seu companheiro na praia da Guaibim, levada à Santa Casa de Misericórdia, aonde veio a falecer ao dar entrada.
Falou-se inicialmente em suicídio, porém a Polícia está investigando o ocorrido, uma vez que há suspeitas de que pode ter sido assassinato. Não sabemos o que realmente houve, por isso solicitamos às autoridades uma investigação rigorosa dos fatos.
Caso tenha sido suicídio, que ela possa descansar em paz. Caso tenha sido assassinato que o responsável seja identificado e exemplarmente punido. A cidade está perplexa, os meios artísticos, estarrecidos. Maria Cláudia deixa dois filhinhos.
Partindo que hipótese de que a morte de Maria Cláudia tenha sido realmente praticada por ela própria, lembrei-me de um texto, o qual reproduzo a seguir: “Suicídio é o trem noturno, apressando nosso caminho rumo à escuridão. Não chegaremos lá tão rápido, não por meios naturais. A gente compra a passagem e embarca. A pas¬sagem custa tudo o que possuímos. Mas é apenas de ida. O trem nos leva para dentro da noite e nos deixa lá. É o trem noturno.”
O autor(*) continua: “Agora sinto que alguém está dentro de mim, como um intruso, a lanterna em punho. [...] Suicídio é um problema da mente-corpo que termina violentamente e sem nenhum vencedor.”



Araken Vaz Galvão - Texto publicado no jornal Valença Agora

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