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quinta-feira, 24 de março de 2011

NESSE LUTO COMEÇO A MINHA LUTA!


Esse texto deveria ter outro título e tratar de outro assunto. Pretendia aqui convidar a todos/as, para, mais uma vez, nos reunirmos no Centro de Cultura e comemorar o dia do Teatro e do Circo. Estávamos programando para o dia 27/03, a Noite Vanilton Costa, em homenagem ao ator valenciano, morto precocemente em 2005.
No entanto, como dizia o poeta Chico Buarque “eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá...”.
Quis o destino, ou seja lá que nome queiram dar, que na tarde/noite desta segunda-feira, nossa colega/amiga/irmã/companheira de palco e diversas outras loucuras... representasse seu último papel e saísse de cena deixando-nos a todos, atônitos, pois o que pensávamos a princípio ser uma comédia, tornou-se uma tragédia...
Maria Cláudia se foi. Embora alguns alimentem a certeza de que ela está agora em outro palco, que iremos nos re-encontrar... nunca mais sentiremos aquela tensão quando ela irrompia em qualquer espaço e não sabíamos o que poderia acontecer...
Desde a segunda, quando cada um de nós recebeu a notícia, lembranças desfilaram como um rosário, em cada um que a conheceu. De minha parte, ao longo destes 15 anos, pude assistir/ atuar e ouvir com Maria Cláudia espetáculos impagáveis!
Eram tantas Marias em uma só...
A Maria Cláudia, militante no Movimento Estudantil, boa de briga, que com sua ousadia e coragem deixava qualquer um vermelho, nem que fosse de raiva! Que não poupava ninguém com sua língua ferina... que era capaz de fazer-nos rir e chorar, às vezes ao mesmo tempo!
A Maria Cláudia militante do Partido dos Trabalhadores e dos movimentos sociais... Mulher, negra... Louca, sim! Mas de uma fidelidade à toda prova, colocando sua vida e tudo o que tinha no que acreditava! Quantas vezes arriscamos nossas vidas, com ela ao volante, entre pragas e palavrões ou em inúmeras caminhadas, panfletagens... sua casa transformada em comitê de campanha e sempre aberta para nossas reuniões... quantas vezes tivemos que correr para apagar os “incêndios” que ela provocava...
Maria Cláudia repórter, escritora e poetisa... cujas palavras fluíam em qualquer lugar, compunha um poema numa sentada nos momentos de inspiração e trabalhava apenas quando “estava a fim”...
Maria Cláudia atriz... quando se empolgava e levava as coisas a sério, não comia uma vírgula do texto e interpretava impecavelmente compondo personagens surpreendentes! Como não lembrar da Rúbia, em Teatro Nu com toda a sua expansividade... lembro de uma oficina onde pude ver ela atuando imóvel no palco, debrulhando-se em lágrimas e dando seu texto... com ela aprendi que “o artista não, tem sexo, crença, nacionalidade... só tem compromisso com sua arte!”
Maria amiga e companheira... dos bares, das noites, das madrugadas até ver o sol nascer... tantos lugares, tantas histórias... Maria era a que atendia a qualquer hora e não hesitava também em desassossegar qualquer um para cumprir suas ‘ordens’...
Com Maria não tinha meio termo! Era uma energia bivolt! 8 ou 80! “... da revolta à compaixão... da melancolia ao êxtase...” agregando e desagregando!
E como não podia deixar de ser, seu funeral foi um momento triste e alegre! Choramos e rimos lembrando de boas histórias! Cantamos e silenciamos... foi um re-encontro marcado! Dos amigos de longe e de perto! Dos que não víamos nem falávamos a muito tempo!
Por isso proponho um desafio, não só por ela, mas por nós mesmos! Que não nos afastemos novamente! Utilizemos essa “energia” para fazermos muito mais juntos!
Queria encerrar contando apenas um último fato quando realizamos a primeira Ocupação Cultural no ano de 2009. Só pra variar, não estávamos nos falando... ela fez barulho, ameaçou um escândalo... mas na hora H sentou-se direitinho e compôs ali mesmo um poema/manifesto, levantou-se e irrompeu cantando “vem, vamos embora que esperar não é saber”... para depois bradar:
Ocuparemos as nossas ruas
Com a glória dos sonetos,
Batuques e tambores.
Utilizaremos a arma
Da cultura popular
Para ferir o peito daquele que
Não acredita que a massa tem sim,
A capacidade da transformação
singular da arte
que está escrita no DNA do brasileiro.

Derrubaremos os muros
Que separam a prosa do verso,
O Rock do Pop,
Reggae ao Funk,
Do samba a Bossa Nova.

E comungaremos a Santa Hóstia Cultural.

Onde o que contará é a minha,
A sua, a nossa expressão,
O nosso fazer cultural.

Um dia hei de ver as estátuas de mármore
Que reinam solitárias e inertes
Nos jardins da minha terra
Uma por uma, com suas cabeças
Espatifadas no chão.
Num ato de repúdio ao observar seu povo
Que por tanto tempo se fez de tolo
E hoje, deu seu grito de libertação.

A libertação cultural.

Pois é! Maria morreu sem ver suas profecias se cumprirem... mas nós, que continuamos aqui, transformemos o luto em luta para concretizá-las! Por isso convidamos a todos para dar o primeiro passo: na próxima sexta-feira, 1 de Abril, estaremos realizando a primeira Ocupação deste ano no Centro de Cultura. Queremos comemorar o dia do Teatro e do Circo, além de dedicar esta noite a dois grandes artistas: Vanilton Costa e Maria Cláudia Rodrigues numa grande celebração cultural. Um encontro muito maior e muito mais bonito, digno dos grandes espetáculos!
Programe-se e confirme o quanto antes sua presença!

“A vida é um grande espetáculo! Sem ensaios! Por isso cante, dance, chore, ria... antes que a cortina se feche e as luzes se apaguem!”

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