Seguidores da Ocupação

sábado, 23 de janeiro de 2010

CARTA ABERTA À PAPILLON


“Deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar”. ( Marcelo D2)

Ai. Vai começar tudo de novo. Logo agora que passei 2009 exercitando como lidar com minha língua e acho que colhi bons frutos, vou botar tudo a perder.
Pouco adianta o conselho dado por Galvão no início do ano: - Fazer um balanço dos erros e acertos.
Respondi-lhe, de novo, um tanto grosseiro: - Não há tempo, o ano já começou e é hora de errar de novo.
Eu até tento. Mas a cabeça começa a remoer. Tento afastar os pensamentos, mas eles continuam ali como a bloquear a passagem. Até que não agüento mais e tenho que descarrega-los no papel.
Não devia. Sei do risco que corro. Como dizia Brecht: “Eu queria ser um sábio... Manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; Seguir seu caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. Sabedoria é isso! Mas eu não consigo agir assim.”
Fui tomado de assalto, em mais uma noite, ao ler o Valença Agora onde havia sido publicada a crônica vencedora do 3ª lugar do concurso promovido pela AVELA. Já conhecia o seu autor, por isso li, talvez, com um olhar mais acurado e a cada frase, a cada parágrafo tão bem escrito e convincente, crescia-me a vontade de respondê-lo.
Era este justamente o problema: talvez se não o conhecesse, permaneceria a eterna dúvida – “Ele é assim mesmo como escreve?” - Não teria levado tão a sério e conseguisse afastar a exequível provocação...
Enfim, já era tarde! Não havia mais volta e fiquei a refletir e rememorar fatos, os quais vieram como capítulos de um filme a se desenrolar no menu do DVD. Deu até medo de que eles se perdessem, mas vou tentar narra-los a fim de que compreendam a história.

Primeiro quadro: a crônica. O autor durante todo o tempo fala sobre o seu medo da liberdade. Discorre com maestria sobre o tema, agradece aos que morreram pela liberdade... mas dá-nos um duro golpe quando proclama: “O que eu preciso mesmo é de alguém que faça as coisas para mim. Preciso que escolham por mim, que vivam por mim, que corram os riscos(...)Acho que eu queria ser um tetraplégico...”

Segundo quadro: Fevereiro de 2009. Cansado do marasmo, comecei a empreender o que seria, na minha cabeça, a última tentativa de quebrar a monotonia. A idéia era se não absurda, ao menos “audaciosa”, com pouco recurso ou mesmo nenhum, reunir um grupo de artistas e pensadores e expor as nossas idéias, nossa arte, nossos trabalhos... Armei-me com os melhores argumentos e saí realizando os primeiros contatos de casa em casa... enfim, aterrisei numa das repúblicas de estudantes da UNEB. Ali parecia o solo ideal. Gente nova, cabeça boa, recém chegados na cidade, livres portanto dos ranços de nossa ‘província’... alguns até já tinham alisado os bancos acadêmicos, egressos do curso de história, agora calouros do curso de Direito... era impossível que ali não arrumasse parceiros, até por que já havíamos topado em outras praças, outros bares, outras mesas, outras farras... Expus resumidamente a idéia e lancei o convite aos presentes, entre eles o papillon, cujo convite reforcei, talvez mais do que os outros... Tergiversaram que não conheciam os que iriam estar além de mim, precisavam criar mais intimidade... Assim, iriam ao menos assistir, quem sabe na próxima não apresentavam algo. Concordei e segui meu caminho batendo em outras portas e ouvindo também outras recusas.

Terceiro quadro: Chegara finalmente o dia de estréia. Felizmente outros se juntaram e foram chegando. Apreensivo, mas confiante, fiz questão de pessoalmente falar com cada um que chegava. Surpresas inesperadas. Mas os “meninos da UNEB” não apareceram.
Resistimos. Marcamos a segunda Ocupação. Novas visitas. Novos convites. Voltei à República, desta vez munido de materiais, vídeos que foram produzidos na 1ª Ocupação, blog, fotos... refiz o convite, anotei e mails, ouvi desculpas e seguimos. Mais uma Ocupação... e de novo os “meninos” não apareceram... Na saída, avistei-os num dos bares que costumávamos ir... pelo jeito estavam ali desde cedo numa conversa animada... é provável que haviam esquecido... preferi ficar com meus “novos companheiros de jornada”...
A Ocupação Cultural se consolidou e continuei mandando convites por email. Nunca obtive ao menos uma resposta. Desnecessário dizer também que nenhum deles apareceu, nem mesmo quando levamos a poesia à academia, realizando inclusive uma edição na própria UNEB...

Quadro seguinte: Outubro de 2009. Já estávamos pelas 20 edições. Numa edição em parceria com a AVELA, finalmente lá estava o papillon. Ao final, fui cumprimenta-lo. Convidei-o a aparecer mais vezes. Sugeri que senão quisesse apresentar-se ao menos escrevesse algo sobre a Ocupação, uma resenha que fosse, precisávamos de um olhar de alguém não tão envolvido que apontasse-nos inclusive falhas. Ofereci o espaço do nosso blog... Ele me ouviu. Não consentiu nem recusou.
Em vão. Soube depois que ele havia comparecido por que era um dos finalistas do Concurso promovido pela AVELA e haviam anunciado que a entrega da premiação poderia ocorrer naquela noite, ou seja, ele havia ido apenas receber sua condecoração. E nunca mais pôs os pés em nenhuma outra Ocupação Cultural ou sequer me deu qualquer resposta...

Pronto. O filme acabou. É provável que alguns já tenham concluído que é uma história boba, sem muita importância. Que não se deveria perder tanto tempo, papel e tinta... que qualquer um tem todo o direito de fazer ou não o que quer, no que concordo e não posso obrigá-los, mas provido do mesmo direito posso expor o que penso.
Por que tanta importância a uma pessoa ou a um pequeno grupo se a “ocupação” continuou, cresceu e conseguiu reunir tantos outros? Não seria implicância demais?
Lembrei-me de um raciocínio de Exupéry pela boca do Pequeno Príncipe: “Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e das flores?”
Os que me conhecem sabem que sou assim. Deve ser ainda minha porção cristã. Sempre me fascinou a história do Bom Pastor contada na Bíblia por Jesus: - Quem de vós tendo 100 ovelhas, quando uma se perde não leva as demais para um lugar seguro e volta à procura da que está faltando?
Mas voltemos a falar de liberdade, afinal era esse o medo do ‘nosso’ papillon. Compreendo. Viver é mesmo perigoso. É arriscar-se. E nem todos estão dispostos a deixar o conforto para embrenhar-se pelo desconhecido, pelo novo que pode inclusive dar errado. Provoca sofrimento por vezes. Alguns até arriscam um pouco, molham os pés, as mãos, mas recuam receosos quando a onda vem...
Eu não. Prefiro mergulhar de cabeça. É deveras arriscado, podemos sim bater de frente com uma pedra, perder-se no caminho. Não conseguir voltar. Mas podemos também descobrir ou fazer novos caminhos. Como cantou Gozaguinha: “é maravilha ou sofrimento, é alegria ou lamento, mas é bonita”.
E isso a Ocupação Cultural me ensinou. Que juntos podemos e somos fortes. Foi bonito na última edição ver o depoimento emocionado de Jamile, sem dizer uma palavra na primeira, tão tímida que era, e hoje uma nova mulher, liderando uma banda, acompanhando o irmão ao violão ou até mesmo dando gargalhadas ao microfone, expressar-se de uma maneira tão forte cuja emoção deixou-me sem palavras. Ver Isabela com tanta paixão no que acreditava. Ver a “velha guarda” voltar a sair de casa, desencavar poemas, voltar a escrever e não ter medo de se misturar com os novos... Ver Náira com tanta espontaneidade: “A Ocupação foi a porta que encontrei para fazer teatro!”. Ver Chico Nascimento enfrentar quilômetros de estrada de barro para vim aqui apenas passar algumas horas, recitar um poema ou mostrar uma cantiga de reis que aprendera com pai. Ver o esforço de Djafar, cuja dificuldade de locomoção nunca foi impeditivo para dar seu recado: - façam por vocês! Ver Day abandonar outros palcos para se juntar a nós e declarar sem hipocrisia: “A Ocupação é viciante!”. Ver artistas que chegaram um pouco desconfiados, mas aos poucos foram se despindo de vaidades e entregaram-se de corpo e alma ao projeto, gente que não mediu esforços, topava qualquer parada, corria riscos, mas não desistia nem desanimava. Saber daqueles que aguardavam com ansiedade cada Ocupação... histórias que construímos, marcaram e estão guardadas na memória de cada um.
Pode ter sido de pouca monta o que realizamos. Não inventamos a roda. Temos certeza de que poderíamos ter feito mais se outros se dispusessem a juntar-se à nós. Vencessem o medo, a preguiça ou o que quer que seja.
Como cantou D2: “O cidadão por outro lado se diz impotente... a impotência é uma escolha também de não assumir a própria responsabilidade...”
“O sonho não acabou!” Muito ainda há a ser feito. Muito que andar por aí. Em 2010 botaremos mais uma vez o pé na estrada e ocuparemos os espaços que pudermos. O convite está feito aos que ousarem arriscar-se. Ou se preferirem, deixa pra lá, eu continuo viajando...

Adriano Pereira

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