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domingo, 27 de setembro de 2009

MAIS UMA HOMENAGEM A JUDSON



Foi publicado no Valença Agora desta semana um artigo escrito por Galvão em homenagem à Judson. Dada à beleza do texto, reproduzimos aki para os que não tiveram acesso ao jornal. Leiam e deixem também seus comentários. Lembramos que a OCupação detsa semana, relaizada no dia 02/10 será dedicada à ele, portanto todos lá, no Centro de Cultura a partir das 18h.

Mocidade e Morte

Nada há na vida que apresente em maior oposição a mocidade do que a morte. Juventude e morte não se coadunam. Castro Alves expressou essa contradição no seu belíssimo, e dramático, poema homônimo, que, entre os seus versos candentes, há um que diz: “Eu morro, Oh, Deus, na aurora da existência/ quando a sede e os desejos em nós palpitam...”
Mas o poema de Castro Alves é por demais conhecido de todos os baianos; tendo sido recitado (creio que ainda o é) em todas as escolas do nosso Estado, em alguma ocasião. Sendo-o ainda em saraus – ou, pelo menos, tendo sido, no tempo em que havia saraus e pessoas de bom gosto para ouvir a boa poesia. Daí não me estender muito sobre sua beleza, sobre sua dolorosa dramaticidade.
Lembrei-me dele, porém, por ter recebido, na manhã de segunda-feira, dia 21 deste mês, a trágica notícia de Judson Bonfim dos Santos. Minha amiga e auxiliar, Juscimare chegou e, sem preâmbulo, perguntou-me:
— Sabe o que sucedeu com Judson? – E sem esperar que eu assimilasse o que de trágico poderia haver no anunciado – Acrescentou:
— Saiu para nadar com os amigos e está desaparecido...
Mais tarde confirmou-se. Judson estava morto.
Durante o resto do dia, alguns dos seus amigos procuraram-me. Não sei se em busca de uma palavra de conforto ou se esperando alguma atitude minha. Recebi-os quase em silêncio. O único som compatível com a dor são os soluços do pranto. Que poderia eu dizer-lhes?
Na terça-feira, pela manhã, ao abrir minha caixa postal encontrei uma mensagem de Adriano Pereira – jovem e dinâmico líder d’Ocupação Cultural, cujo texto, frio e seco, como uma dor sem gemido, transcrevo a seguir:
É com imenso pesar que comunicamos a todos o prematuro passamento do jovem ator Judson Santos ocorrido na tarde de ontem, 20/09 na cidade de Valença – Ba. Solidarizamo-nos com os familiares e amigos ao tempo em que convidamos a todos para prestarem sua última homenagem a este inestimável colega cujo corpo está sendo velado na Capela de São Cristóvão – Bairro da Urbis, local de onde sairá o cortejo fúnebre a partir das 09 horas de amanhã (22/09).

Mas a doída nota de Adriano não nós diz muito. Quem foi Judson Santos? Ele foi meu aluno, lembrei-me. Convivi com ele pelo espaço de quatro semanas, ocasião em que lhe ministrei um curso de iniciação à linguagem cinematográfica, aqui na FUNCEA. Mas isso, tampouco, diz muita coisa. Posso informar ainda que o curso surgiu porque ele e mais três amigos (Juscimare – que já colaborava comigo – Lorena e seu irmão José Henrique), procuraram-me indagando se eu poderia “ensinar” algo sobre cinema. Um curso, talvez, se não fossem muito caras às aulas.
Disse-lhes, aos quatro, que o custo das aulas seria que cada um lesse um livro e, se tivessem tempo depois, aparecessem por aqui para continuarmos falando sobre o tema. Bem, o curso foi ministrado, os jovens seguiram seus caminhos, vez por outra um deles aparecia por aqui, conversava sobre cinema ou literatura, liam algo que eu sugeria e seguiam em frente.
Judson era um dos que aparecia com mais assiduidade – excluída, é claro, Juscimare, que me ajuda aqui na FUNCEA –, ainda que muitas vezes ficasse um bom tempo sem aparecer. Muitas vezes, quando voltava de Salvador, das reuniões do CEC, ouvia de Juscimare:
— O Judson esteve aqui, deixou um abraço para o senhor.
Neste meio tempo, o Adriano iniciou o seu belo projeto “Ocupação Cultural”. Em uma daquelas tardes vejo o Judson perfeitamente integrado àquele grupo de artistas. Ao vê-lo, como sói fazer os velhos, disse de mim para comigo: Esse rapaz vai longe.
Foi. Infelizmente foi. Deixou-nos e foi brincar com as estrelas.
Como essa fatalidade dói-me o coração...
Pelas leis naturais da vida quem morre somos nós, os velhos. E Judson nem tinha começado a viver. Foi aí que lembrei de Castro Alves e pensei: Ele morreu, na aurora da existência. Por quê? Por quê? Por quê?
Pensando nesse absurdo que é a vida, Lembrei-me também de “lembrar”, como ele era. Como era o jovem Judson?
Além de magro, ele era alto, bem alto e um tanto desengonçado – sem que esta palavra tenha nenhum sentido pejorativo. Sendo muito alto e ainda muito jovem, Judson não tinha ainda conseguido equilibrar seus movimentos, dando a ideia de ser desaprumado. E aos seus passos inseguros, somava-se ainda o jeito circunspecto como passava a minha porta – éramos vizinhos – meditando, o que sempre me lembrava os versos do poeta Thiago de Melo: “[...] como se andasse de mãos dadas com o ar...” Se o visse, minha avó, por certo, diria: “Esse menino anda com a cabeça nas nuvens...” Andava. E terminou indo morar além das nuvens. Talvez por isso, levava sempre, às costas, uma pesada mochila, como se já estivesse se preparando para fazer um acampamento definitivo lá no alto.
Nela, em sua mochila – imagino... E como imagino! – o Judson carregava sonhos. Infelizmente não realizados, pois foram ceifados pela a fatalidade da morte.
Circunspecto e meditativo, Judson morreu de forma lúdica, como fazem as crianças e os puros. Ao que consta, não nadava muito bem, mas estava justamente brincando em atravessar um rio com a seriedade com que aprendia a fazer o que ainda não sabia: praticando. Uma semana antes, com seu amigo Adriano, estivera interpretando Shakespeare.
Ao que dizem, o seu corpo foi encontrado de bruços, com os braços para frente, indicando que segurava, com as duas mãos, algo que se lhe escapava. A vida, os sonhos, a mocidade, as esperanças.
O que ele não sabia, não poderia saber, era o tamanho da saudade que deixaria no coração daqueles que o amavam.
Requiescat in pace, Judson, teus amigos jamais te esquecerão...
E, por favor, Judson, continua brincando com as estrelas.
Amém.

A Vaz Galvão

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