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terça-feira, 12 de maio de 2009

CARTA ABERTA A AUGUSTO BOAL

Valença, 02 de Maio de 2009. Paro na frente da televisão e recebo a notícia rápida e objetiva como um tiro à queima roupa: Morreu hoje o dramaturgo Augusto Boal.
Dita dessa forma, com certeza, o povo não parou para ouvir. Dois palavrões: dramaturgo e Boal. Nem brasileiro parece ser. Só mais um velhinho que morreu de problemas de saúde. Culpa talvez do nosso SUS, onde tantos morrem e nem são noticiados. Fato normal, corriqueiro, como a vida!
De novo, a grande imprensa, que tanto o censurou, provoca mais uma vez, intencionalmente, o seu assassinato. Imagem teatral que persiste: o opressor sufocando o oprimido.
Mas é na morte física que o corpo se liberta e a notícia corre, de boca em boca, mesmo que eles não queiram. O povo, oprimido, sinaleticamente, entende a mensagem e pipocam homenagens espontâneas. Nos palcos, nas ruas... homenagens simples, do povo brasileiro que você tanto amava e se misturava.
Não deu no New Iorque Taimes. Não decretaram luto oficial. As grandes estrelas dirigidas por você estavam mais ocupadas com o brilho pessoal e não compareceram... Os amigos, agora no poder, parece que esqueceram...
Deveriam se envergonhar de estar assumindo a postura do opressor. Se tivessem o mínimo de respeito à sua memória, nossa bandeira seria hasteada a meio mastro nas escolas, nas praças... em homenagem ao filho do padeiro, ao brasileiro que recebeu da ONU o título de embaixador mundial do teatro e fez fama em todo o mundo sendo traduzido para mais de 70 línguas.
Mas “nenhum profeta é bem aceito em sua terra”... e “infeliz tu, país que precisa de heróis!”
Tua tentativa de contar e cantar a vida. De tranformá-la numa arena. De mostra-nos que cada um de nós é um grande ator, não foi em vão.
Com você aprendemos a ser. A vencer as opressões. A superar desafios. Sonhar. Transformar sonhos em desejos e realizá-los. Ter brilho próprio. Ter coragem e opinião.
Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião...
Disseste em vida que, mesmo no Brasil, teu exílio não tinha acabado. É provável, meu caro amigo, que outro amigo tenha te ouvido e tenha vindo lhe buscar para ajudara educar, com seu teatro, em outros palcos. Afinal, não pode ter sido mera coincidência ter-nos deixado no mesmo 2 de Maio que Paulo Freire, autor da Pedagogia do Oprimido, tenha nos deixado, a 12 anos atrás.
Aqui na terra, seguiremos com saudades, mas não esquecendo de sua memória... seu legado. Seguiremos lutando contra as mazelas que você não cansou de denunciar. Seguiremos ocupando espaços. E continuando a luta contra todas as opressões... até o dia em que nos reencontraremos e aí sim, será uma festa, um grande banquete, um brado, um brinde à libertação.

Adriano Pereira

* Texto apresentado por Irene Dóres na OCupação do dia 09/05

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